One Battle After Another: o filme que prova que Paul Thomas Anderson ainda tem algo novo a dizer sobre a América

One battle after another chega ao streaming com seis Oscars, incluindo Melhor Filme de 2026, e com uma crítica unânime que coloca o longa entre os melhores trabalhos de Paul Thomas Anderson em três décadas de carreira. Para quem acompanha o cinema americano como forma de leitura cultural, o filme é mais do que entretenimento de qualidade: é um diagnóstico do momento político norte-americano embrulhado em comédia de ação, o tipo de combinação que Anderson raramente tenta e que aqui executa com uma precisão que parece imprevista até para quem já acompanha seu trabalho.
O que é o filme
Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another) é uma ação-comédia-thriller baseada livremente no romance Vineland de Thomas Pynchon, publicado em 1990. Anderson havia querido adaptar o livro desde o início dos anos 2000 e passou décadas incorporando elementos da própria experiência de vida ao roteiro, criando algo que é simultaneamente uma adaptação e uma obra completamente original.
A narrativa segue Bob Ferguson, interpretado por Leonardo DiCaprio, um ex-revolucionário que tenta criar a filha Willa em relativo isolamento depois de anos de frustração com o movimento político de que fazia parte. Quando o arqui-inimigo de Bob reaparece depois de dezesseis anos e Willa desaparece misteriosamente, ele é forçado a confrontar um passado que tentou deixar para trás, reunindo velhos aliados para uma missão que tem tanto de comédia absurda quanto de thriller político.
Paul Thomas Anderson e a comédia como instrumento crítico
O que surpreendeu a crítica em Uma Batalha Após a Outra foi a disposição de Anderson de trabalhar abertamente no registro da comédia, algo que seus filmes anteriores tocavam mas raramente abraçavam. A trilha sonora de Jonny Greenwood, parceiro habitual do diretor, alterna entre momentos de tensão genuína e passagens deliberadamente ridículas, criando uma dissonância que é parte do argumento estético do filme.
Anderson usou o formato VistaVision, um processo de filmagem que não era utilizado comercialmente desde os anos 60, para criar uma textura visual específica que mistura nostalgia cinematográfica com urgência narrativa contemporânea. A escolha técnica não é capricho: faz parte de um argumento visual sobre como o passado e o presente coexistem de formas que nunca são completamente separáveis.
Por que é relevante para um público de mães
O coração emocional do filme é a relação entre Bob e Willa, uma história sobre paternidade imperfeita e sobre o peso que decisões políticas e morais da geração anterior transferem para a seguinte. Bob não é um bom pai no sentido convencional: é paranóico, inconsistente e carrega traumas que não soube como processar. Mas ama a filha com uma intensidade que é o único ponto de estabilidade emocional de sua vida.
Thomas Pynchon e a adaptação que demorou décadas
Pynchon é considerado um dos escritores americanos mais difíceis de adaptar para o cinema, em parte pela densidade de suas referências culturais e em parte pela estrutura narrativa deliberadamente labiríntica que define seu estilo. A adaptação de Inherent Vice por Anderson em 2014 foi a primeira vez que um romance do autor chegou às telas, e o resultado dividiu crítica e público de forma que espelhou a recepção da própria obra literária.
Uma Batalha Após a Outra usou Vineland como inspiração em vez de adaptação estrita, o que é uma abordagem mais honesta com as limitações do formato. Anderson incorporou o espírito do romance, particularmente sua visão de uma contracultura americana que foi cooptada e destruída pela mesma sociedade que tentava subverter, sem tentar reproduzir a estrutura narrativa que funciona na página mas raramente na tela. O filme vencedor do Oscar está disponível em streaming gratuito.
Cinema gratuito e o valor do acesso sem barreiras
O crescimento das plataformas de streaming gratuitas no Brasil representa uma mudança real no acesso à cultura audiovisual. Títulos que antes exigiam assinaturas pagas, ida ao cinema ou compra de DVDs estão hoje disponíveis para qualquer pessoa com uma conta de e-commerce já existente e uma conexão razoável à internet. Essa democratização tem consequências que vão além do entretenimento imediato: mais pessoas têm acesso a referências culturais compartilhadas, a debates sobre cinema e a obras que moldam conversas sobre política, ética e experiência humana.
O modelo financiado por publicidade que sustenta esse acesso gratuito é o mesmo que sustentou a televisão aberta por décadas, e a diferença é que no streaming o usuário escolhe o que quer ver e quando quer ver, sem depender de grade de programação. Para quem vive em cidades do interior do Brasil com menos infraestrutura cultural urbana, essa combinação de liberdade de escolha e custo zero é especialmente significativa.
Quando Willa desaparece, Bob não está apenas resgatando a filha: está tentando reparar tudo o que falhou como pai antes que seja tarde demais. Essa dimensão do filme, que críticos como David Ehrlich chamaram de “a história de paternidade mais honesta que Anderson já contou”, é o que ancora a comédia e o thriller num substrato emocional que vai muito além do gênero.